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Quando o taxímetro marcava 4:34 PM













Opeth - Watershed (2008)





A tese amplamente defendida que a produção em larga escala apresenta sempre baixa qualidade está implantada em vários segmentos da sociedade pós-moderna, até mesmo podendo-se associar tais conceitos com a arte. Na indústria do cinema, fonográfica e em outros nacos culturais, opta-se quase sempre o efêmero ao hibrido. Mas, como na arte nada é absoluto ou verdadeiro, alguns nomes quebram tais preceitos. Recentemente Frank Black, do Pixies, gravou o quinto disco em um intervalo de três anos, além de já ter lançado dois eps em 2008. Thom Yorke declarou a pouco tempo que o Radiohead tem mais de 70 músicas prontas que não entraram no último álbum da banda, o polêmico In Rainbows. Tais como esses, a banda sueca Opeth lança seu décimo disco, Watershed, oito meses depois da última compilação, lançado em setembro do ano passado.

Sem perder a identidade básica do grupo - guitarras pesadas, pedais duplos, violões dedilhados e a voz versátil de Mikael Akerfeldt – Watershed traz consigo canções melancólicas, soturnas, que misturam várias referências. A rotulação que a banda recebe se resume, quase sempre, ao doom metal, mesmo ninguém sabendo o que é isso de fato. Porém, ampliando os canais sonoros é perceptível certas associações com o hard rock setentista, que mistura-se com o folk, jazz, rock progressivo e black metal. O que sai dessa miscelânea de estilos é bem mais coeso do que se imagina, tratando-se de um som único em meio à superficialidade que nos insistem apresentar.

Watershed inicia-se com uma baladinha – aos moldes Opeth – chamada Coil. A música é uma conversa entre um casal que demonstra as fragilidades de um amor líquido. O álbum, como um todo, trata os relacionamentos, amorosos ou não, como perdido, longínquo, sombrio, sem deixar de lado a depressão e a passionalidade. The Lotus Eater, Burden e Porcelain Heart são músicas que comprovam essa temática do disco e também da banda em todos os sentidos, tanto na qualidade musical apresentada pelo suecos - desde sua origem em 1991 - com variações múltiplas nas melodias, quanto nas letras mórbidas que falam de relacionamentos. A compilação ainda apresenta um disco bônus que conta com três covers, entre os quais chama atenção a clássica do Alice in Chains, Would?, versão que os fãs mais conservadores da banda de Seattle irão estranhar. O peso das guitarras permanece no cover, porém algumas mudanças melódicas são inseridas durante seus mais de 5 minutos.

O fordismo ainda presente na nossa sociedade, e na cultura globalizada, não impede que grandes músicos criem em grande quantidade sem perder na qualidade sonora. E como divisores de águas, Black, Yorke e Akerfeldt refletem tal pensamento e permanecem criando grandes melodias, cada um a seu estilo.

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.:Thiago fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 8:58 PM


Distúrbio Bipolar

ou

A Era dos Extremos

do Brian Jonestown Massacre




Bem vindo ao inferno particular de Anton Newcombe.

Depois de demitir mais de 40 membros diferentes de sua banda ao longo de 18 anos, e de cinco temporadas sem lançar nada de novo, o cérebro por trás do Brian Jonestown Massacre dá as boas-vindas com “Bring me the head of Paul McCartney on Heather Mill’s wooden peg (Dropping bombs on the White House)”, faixa 1 de seu novo trabalho. Só por esse título, o disco já merece, no mínimo, a sua atenção completa.


Capa de "My Bloody Underground" (2008, A Records)


“My Bloody Underground” é o nono álbum dos norte-americanos do BJM. O nome, uma ode a duas das mais influentes bandas da história do rock (My Bloody Valentine e Velvet Underground), é didaticamente explicado pela faixa “Who cares Why”. Aqui, uma imensa parede de barulho shoegazer é o pano de fundo para o transtorno de Newcombe. É uma experiência densa (sem nunca ser hermética), como o disco num todo.

Chegado num distúrbio bipolar, em “MBU”, Anton está menos preocupado com o vocal. Sua voz perdeu força e, talvez por isso, as atenções se voltam para a composição dos (alguns barulhentos, muitos introspectivos, e todos distoantes) cenários sonoros de sua psique. Ele emenda a sutileza de uma balada ao piano (“We are the Niggers of the World”) com guitarras altas e distorcidas (“Golden Frost”), sem medo algum de errar a mão.

Boa parte das músicas ultrapassa os seis minutos de duração – uma barreira para muitos ouvintes. Newcombe faz questão de avisar em “Yeah-Yeah”: “I’m not in a hurry” (“Não estou com pressa”). Apesar disso, “My Bloody Underground” não é devagar, mas circunspecto, cuidadoso.

A aparente falta de coesão entre as faixas do disco novo é totalmente coerente com o universo interior da figura. Herói da resistência alternativa, Anton Newcombe sempre deixou claro que não é um cara normal. Inspirado em Charles Manson e devoto dos Rolling Stones, ele optou pela música – e pela insanidade – ao estrelato, como deixa claro o documentário “Dig!”, de 2004.


Anton Newcombe e seus brinquedos, num momento de descontração


O filme mostra como, durante a existência do Brian Jonestown Massacre, Newcombe encarnou um legítimo outsider. Doidão, traçou rota contrária aos padrões da indústria (não vendeu discos, não fez sucesso, não ficou rico), e fez qualquer Pete Doherty parecer aspirante a viciado. No caminho, porém, passou por quase tudo de bom que foi produzido no rock, e produziu algumas jóias, como “Take It From The Man!”, álbum de 1996. É dos raros casos em que a influência (Stones, Dylan, Jesus & Mary Chain, etc.) não se transforma em mera cópia.

Muitos críticos têm descido a lenha na volta do BJM. “Desconexo”, “difícil”, “experimental demais”, são as descrições mais comuns dos detratores do subterrâneo sangrento da banda. Com Anton Newcombe sempre foi assim: “ame ou odeie” e, verdade seja dita, a ele pouco importa se você tira algum proveito de seu som, porque ele não faz nenhuma questão de companhia.

Contudo, aos que ultrapassam a barreira da resistência, a recompensa é garantida.

Por essas e outras, “My Bloody Underground” é um legítimo trabalho do Brian Jonestown Massacre: releitura de influências diversas, soa autêntico e não faz concessões. Mais um pedaço do universo paralelo de Newcombe, de trajetória errante, bêbada de rock and roll.

***Para ver o vídeo de "Golden-Frost", a faixa 7 de "MBU", clique AQUI.

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.:Felipe fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 2:55 PM


Um rápido olhar sobre o cinema asiático

[ciclo do cineclube da unesp Bauru é boa possibilidade para conhecer o cinema do continente]

Num mundo em que a internet tornou tudo acessível a todos, a cultura [que se globaliza, aceitando referências cosmopolitas e até divergentes] do outro é um fator que causa estranhamento menor, mas é impossível dizer que o cinema asiático não cause um choque cultural inicial ao espectador ocidental. O formato dos olhos, o cotidiano, a língua, as vestimentas, a religião: tudo no oriente parece exótico ao olhar ocidental.

Mas ao vencer esse estranhamento inicial, o espectador pode descobrir naquele cinema exótico algumas belas representações fílmicas de realidades distantes e lirismo mais contemplativo que de exaltação [abordagem diferente da ocidental], um cinema que ainda se faz fortemente artístico e autoral numa época em que as produções visam mais ao consumo.

Didaticamente, podemos dividir o cinema asiático em três principais frentes:

O Japão tem a maior tradição, contando com as duas maiores referências estéticas da região: Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu. Por sua forma de ler a reconstrução pós-Segunda Guerra, Ozu é indispensável para a compreensão e para a formação estética do cinema oriental. A maneira lírica como filma o cotidiano quase corriqueiro fez dele uma grande referência e tem ecos fortes ainda hoje em diversos diretores. Seu filme emblemático, Era uma vez em Tóquio [1953], retrata a vida caótica que um casal de idosos encontra na capital em visita aos filhos, sempre ocupados demais no ritmo da metrópole.

Kurosawa tornou-se célebre com seus filmes de samurais, nos quais transportava o espectador para o Japão feudal em filmes épicos e grandiosos. Ran [1985] é um belo exemplo da estética suntuosa e das inserções folclóricas presentes no cinema do autor.

[cena de Era Uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu]

Apesar de bastante antigo, o cinema chinês passa a ter relevância estética apenas após a reabertura nos anos 80, que possibilitou ao mundo conhecer a “quinta geração” formada pela Escola Chinesa de Cinema, tematizada nas transformações vividas pelo país no processo revolucionário. A reabertura é ainda o alvo de exposição da “sexta geração”, já que os cineastas de formação mais recente mostram seus reflexos na vida dos chineses. O mais importante nome é o de Jia Zhang-ke, que aborda o impacto do desenvolvimento sobre a vida das pessoas numa estética comparável à do mestre Antonioni. Um bom exemplo de seu cinema é o vencedor do Festival de Veneza Em Busca da Vida [2006], no qual a construção da hidrelétrica de Três Gargantas tira as pessoas de seu habitat e faz com que algumas não consigam se reencontrar.
Hou Hsiao-hsien de Taiwan e Wong Kar-wai de Hong Kong compartilham uma espécie de alienação social em favor do lírico. Hou trabalha com a beleza do cotidiano e Wong é exímio contador de histórias de amor, com destaque para Amor à Flor da Pele [2000], no qual o amor emocional é escancarado a cada segundo e o sensual é no máximo sugerido sob enorme beleza estética.

É também de Taiwan o cineasta asiático de maior sucesso da atualidade: Ang Lee. Vencedor do Oscar de Melhor Diretor pelo hollywoodiano O Segredo de Brokeback Mountain [2005] e do de Filme Estrangeiro com O Tigre e o Dragão [2000], o exemplar mais conhecido dos filmes histórico-fantásticos, construídos com especial atenção aos figurinos e aos movimentos coreografados das cenas de luta.

[Jia Zhang-ke mostra o Leão de ouro conquistado por Em Busca da Vida]

Apoiado por uma incrível tecnologia de fotografia, o cinema sul-coreano tornou-se um dos mais interessantes na produção contemporânea. O boom que se deu com Oldboy [2002], de Park Chanwook, chamou atenção para outras produções locais como O Hospedeiro [2006], de Bong Joon-Ho, um filme de monstro com status de cinema de arte, com muito esmero na produção e qualidade no produto final.

*

Esse recente surto tecnológico e o iminente domínio da tecnologia digital sobre o cinema faz com que os cineastas asiáticos, dos que melhor dominam suas técnicas, apareçam como importantes referências e destacados artistas, mantendo liberdade autoral em suas criações e colhendo bons resultados em festivais atualmente. O ciclo do Cineclube da Unesp Bauru é uma boa oportunidade para conhecer um pouco de suas raízes e tendências.

ciclo cinema asiático do cineclube

[os filmes serão exibidos às 16h na Central de Salas das 70s, na Unesp em Bauru]

segunda, 26.5 – Era Uma Vez em Tóquio [1953, Yasujiro Ozu]

terça, 27.5 – Ran [1985, Akira Kurosawa]

quarta, 28.5 – Amor à Flor da Pele [2000, Wong Kar-wai]

quinta, 29.5 – Em Busca da Vida [2006, Jia Zhang-ke]

sexta, 30.5 – O Hospedeiro [2006, Bong Joon-Ho]


.:cesare fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 12:02 AM


saiu na Revista Wave, tocada pelo Daniel Faria [que colaborou no #1 do taxi de papel e em algumas das poucas discussões que tivemos por aqui], desta semana um ensaiozinho meu sobre a multidão como um tema urbano em alguns filmes como Acossado do Godard e Luzes da Cidade do Chaplin, este último acho um filme maravilhoso.
Se algum leitor do taxi virtual se interessar, o link é
a multidão e as luzes da cidade

além dele, na mesma terceira edição saiu um perfil do Andy Warhol, este sim muito mais interessante pro leitor do taxi.

a revista já está no ar há algumas semanas, tem cultura [especialmente a brasileira] como mote e ainda Isaac Pipano [aqui conhecido como Flávio Manoel] como colaborador.



.:cesare fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 9:57 PM


"Já terminei", diz Daniel Plainview, no ato final de uma cena intensa e visceral, forçosamente brechtiana, após 158 minutos de demonstração do poderio de uma atuação impecável e do peso do ator na construção soberba de uma personagem. Por sua vez, um Tommy Lee Jones sereno e enfastiado narra à sua velha mulher um sonho que teve, sob um silêncio mortal do velho Texas ao fundo. "Então eu acordei", conta o xerife que não gosta de armas. As duas cenas encerram os filmes Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez, respectivamente, e embora pareçam drasticamente opostas, são semelhantes. Semelhantes como a própria estrutura dos filmes é.



Ambos são baseados em romances. No Country for Old Men, a primeira adaptação na cinematografia dos irmãos Ethan e Joel Coen, que conta com outros onze roteiros originais, foi encontrada no livro homônimo de Cormac McCarthy, que lhes permitiu sair do duvidoso caminho criativo para o qual estavam indo como no chato Matadores de Velhinha. Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, o mesmo diretor de Magnólia e Boogie Nights, baseou-se na trajetória do petróleo e um prospector de Oil!, uma novela do norte-americano Upton Sinclair.

No filme de Anderson, Johnny Greenwood, do Radiohead, assina a trilha sonora demonstrando uma habilidade peculiar na construção de temas e linhas dissonantes. A autenticidade da música deu ao filme um caráter ainda mais intenso e soturno. Qualquer tom de humanidade e harmonia é recusado através de acordes densos e sons eletrônicos – quase espaciais – postos aparentemente em desconjunto com a fotografia livre, ampla e repleta de planos abertos e panorâmicas. Para os Coen, a trilha sonora – ou sua total ausência – é também primária para o desenvolvimento da narrativa. Não há música e cenas violentas com tiros, explosões e extremado suspense estão entremeadas por períodos longos de silêncio lacerante. Não um silêncio de diálogos – que são tão marcantes quanto os profetizados em Fargo, Na Roda da Fortuna ou O Grande Lebowski, que permitiu aos seus atores ficarem marcados pelas personagens -, mas um silêncio próprio da terra, gerando uma atmosfera exageradamente realista. O silêncio massacra e se faz presente por todo o tempo, sendo abalado algumas vezes de forma súbita e cruel, durante a improvável caçada representada por Josh Broolin e o minucioso psicopata de Javier Bardem.



E como a citação foi pertinente, não há como desconsiderar os filmes sobre a perspectiva da interpretação. Como já foi dito na abertura do texto, temos um Daniel Day-Lewis monstruoso na pele e alma do prospector de petróleo Daniel Plainview, um homem disciplinado e abjecto, sem quaisquer resquícios de humanidade, criando vínculos afetivos falsos motivados apenas pela ambição, tirando proveito de tudo o que lhe convir. Não há paixão em nada durante sua busca obsessiva por enriquecimento, numa trajetória onde sentimentos humanos não têm espaço.

Embora Onde os Fracos Não Têm Vez divida a narrativa em três personagens carismáticos – e, entre eles, o xerife humanista e enfadonho de Tommy Lee Jones e Josh Broolin, o caçador que se vê caçado por um acaso -, é Javier Bardem quem rouba a cena, transformando a classificação “coadjuvante” num equívoco. A composição fotográfica da personagem - o cabelo penteado sistematicamente de forma a parecer quase ridículo, o andar passo a passo e os olhares carregados de ódio – deram a Javier o Oscar e ao personagem a consagração. A maldade injustificável é descrita na face, na maneira fria como comete seus assassinatos e na calma como Chigurg caminha em busca de seu alvo, como um algoz sedento pela morte.

Estranho como ambos - Chigurg e Plainview - se parecem; homens obstinados e imunes a quaisquer manifestações de sentimentos, os dois conduzem a narrativa assombrando com seus minimalismos. Estranho é, no entanto, o apreço que estes mesmos homens têm pela honra, ao passo que mantém em total indiferença sua relação com os demais. Como se a devoção plena às próprias convicções fossem os únicos valores que justificam a existência.


A última cena é reveladora nos dois filmes, pois encerram alguns dos diálogos com o espectador abrindo dezenas de janelas que tencionam reflexões. Em Sangue Negro, Paul parece ter reservado seu melhor para o final, como se o filme crescesse de forma progressiva até o clímax inesperado no encerramento. Se para este a maneira como a película se encerra é que surpreende, no filme dos Coen o que deixa o espectador atônito é a forma súbita como acontece. Uma longa descrição é observada num plano médio para que, em seguida, venha a tela escura com os letreiros, instigando a memória para que retenha na mente a última frase, que nesta altura já foi esquecida.

Existem, ainda, diversos outros aspectos que poderiam ser esmiuçados para comparar os filmes, contudo, nenhuma dessas leituras seria mais eficaz ou mesmo valorosa do que a própria contemplação. Onde os Fracos Não Têm Vez e Sangue Negro são, sobretudo, demonstrações de um cinema autoral que lida com histórias do passado pra dizer muito sobre os nossos tempos.

.:Flavio Manoel fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 1:21 PM


Passado, presente e futuro

Cat Power reafirma sua nova era musical com Jukebox, um álbum repleto de referências e boas versões de consagrados na música.


Mudança de ares pode ser a definição sucinta e perfeita para o novo disco lançando por Chan Marshall, ou Cat Power como preferirem. Mas se acham que Jukebox é o único a representar a mudança na longa carreira de Chan – seu primeiro álbum é de 1994 - se enganam, essas novas influências e referências começaram a surgir já em seu álbum de 2006, intitulado The Greatest, que como o próprio nome já nos sugere, é o melhor, pelo menos naquele momento para a garota nova-iorquina. Depois de ultrapassar uma depressão, uma dúvida em relação a sua carreira na música e vencer, ou pelo menos controlar, crises de alcoolismo, Chan apresentou-nos este belo disco em 2006. Nada mais justo de ela achá-lo o melhor, apesar de o título me soar uma coletânea, e que é justamente o contrário disso. Lá, como cá, em 2008, ela desfila Billy Holiday, Aretha Franklin e todo o jazz e soul que acompanha as personalidades musicais citadas, porém com uma diferença no último disco, nesse Chan faz versões e pequenas homenagens há quem a ajudou.

O principio com New York, clássico na voz de Frank Sinatra, ganha a identidade musical de Chan, quase que um selo de qualidade que geralmente ela coloca em suas versões, visíveis também no álbum de 2000, Covers Record. Ramblin Woman, original na voz de Hank Williams, apresenta-se nessa linha e coroa o começo autoral do disco, e que se prolonga com a clássica Don't Explain e uma versão que até Billy Holiday com a sua voz indefectível reconheceria de qualidade inigualável, se fosse possível.

A questão da crise de personalidade musical vivida pela cantora e citada há pouco é tão séria que uma das boas músicas do disco é Metal Heart. Essa música faz parte do disco Moon Pix, da mesma Cat Power, porém, como ela mesmo esclarece, o disco é parte de um momento depressivo em que ela vivia, então Chan esbanja qualidade e referências do jazz e blues nessa nova versão, ignorando o passado injustamente, apesar de eu achá-la melhor que a original, dependendo da ocasião. Cat Power ainda remonta James Brown, Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival e Joni Mitchell, que deveria ser eternamente grata pela versão de Blue, que fecha o disco.




Jukebox - Cat Power (Matador Records)


Enfim, um álbum para se esquecer o que passou e ter reconhecimento em um futuro bem próximo, mas como afirmam, o passado é algo que nunca se torna passado, ou seja, de alguma forma ele permanece, com Chan Marshall pelo menos essa tese tem fundamento prático, e o nome desse passado é Bob Dylan, que nunca a deixa. Ouça o disco e entenderá o que digo, ou melhor, ouça coisas da sua carreira e os novos álbuns, depois leia essa resenha novamente.

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.:Thiago fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 8:42 PM


Quando parecia que Amy Winehouse era só assunto de fofoca, a inglesinha problemática abocanhou um bocado de grammys

“Querem que eu vá pra reabilitação/ Eu digo não, não, não”. O refrão de “Rehab”, hit do segundo disco de Amy Winehouse, Back to Black, é uma das mais claras relações cantor-eu lírico de 2007. Além dela, em “You know that i’m no good” o título já entrega os modos da jovem inglesa, que provavelmente se sentiria mais à vontade noutra época, quando o soul da Motown era a música da hora e os tablóides deixavam as estrelas vomitarem onde quisessem sem importuná-las. Agora, em época de indies bem comportados, música ou dançante ou garageira e tablóides à caça de celebridades decadentes, os vocais e melodias jazzy e o comportamento auto-destrutivo soam um pouco out.
Mas Amy conseguiu se destacar tanto com a música [que no fim das contas nem é tão sensacional assim, vá lá, mas se destaca em meio ao monte de copiadores de Strokes] que os escândalos relacionados a bebidas, remédios e dependência amorosa, que tanto movimentaram os tablóides nos últimos meses e a proibiram de entrar nos Estados Unidos, não conseguiram afetar os resultados dela sequer no maior [e mais comercial] dos prêmios de música popular. Indicada a seis grammy [música, álbum, composição, artista revelação, álbum pop e vocal feminino], Amy abocanhou cinco, perdendo apenas o de álbum do ano para o veterano jazzista Herbie Hancock e sua bela e estrelada homenagem à ícone do folk Joni Mitchel [River: The Joni Letters, realmente muito bom e um dos meus “discos de cabeceira” nas últimas semanas], com gente como Norah Jones, Tina Turner, Wayne Shorter e Leonard Cohen acompanhando seu piano.
Um pouco desajustada em Frank, seu disco de estréia de 2003, que atingiu até algum sucesso em 2007 na rabeira de Back to Black, Amy Winehouse teve a sorte de encontrar pelo caminho o lançador de talentos Mark Ronson. Mark é o nome por trás de alguns dos jovens ídolos adorados pelo hype nos últimos anos, como a também garota problema Lily Allen.
Além do, direcionamento musical mais certeiro de Ronson, Amy resolveu a questão da imagem [importantíssima no meio pop] com a criação de uma figura para si apoiada nos anos 50-60, na imagem de grupos como as Ronettes e em pin-ups: levantou o cabelão, se encheu de tatuagens [dando uma aura evil], se vestiu de pin-up e saiu cantando jazzy e desamparada ao encontro do sucesso.


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.:cesare fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 11:41 PM


Aparentemente sem motivos, Gil é homenageado num programa de tv. O presente ganho: a diversidade que o consagrou .

Dia15/01/2008 (última terça-feira) a Globo reprisou numa madrugada despretensiosa o Som Brasil especial Gilberto Gil. Uma produção bem acabada que homenageou, com justiça, a carreira de um dos maiores músicos brasileiros.
Apresentado por Patrícia Pilar (que aparece durante 3 min no programa, o suficiente), o programa recebeu convidados interpretando clássicos do nosso ministro. Ao invés de prezar pela popularidade dos convidados ou por preferir as obviedades de sempre (Caetano, Maria Bethânia...), a escalação dos convidados focou-se nas intersecções de influências que a obra de Gil cravou na música feita por artistas “novatos”.
Ambientado num palco circundante, o movimento das câmeras captava os diversos convidados ao fim de cada música. Alternando com as imagens, explicitava-se a diferenciação de estilos e o ponto comum com a carreira de Gil: esse movimento cíclico foi o melhor modo de demonstrar o denominador comum entre Beribrown, Renato Braz e Cibelle (e a participação especial de MV Bill em Haiti).
Normalmente esses especiais são grandes cerimônias de bajulação. Porém foi possível surpreender-se com a demonstração do dinamismo da tão criticada televisão que conseguiu, ao mesmo tempo, instigar os não familiarizados com Gil e vitrinar a diversidade musical dos novos artistas.
O destaque vai para a performance da cantora Cibelle em Refazenda. A
reinvenção do clima bucólico da canção ganhou uma roupagem eletrônica inclinada pro trip-hop... Um cio da natureza brasileira com afagos tântricos que a nossa queridinha do exterior soube interpretar com uma delicadeza ímpar.


p.s.: não deixe de ver apresentação de Cibelle agora mesmo: http://www.youtube.com/watch?v=ILFrXREiLrA


.:Nasser Plínio fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 1:36 PM


Alguns discos que fizeram meu 2007 mais feliz

2007 foi, sem sombra de dúvidas, um ano de ótimos lançamentos, com muita gente gravando, coisas novas aparecendo e com músicos especialmente criativos se reinventando. Dentre os muitos discos de 2007, alguns me agradaram especialmente e fizeram meu ano mais feliz:


Arcade Fire – Neon Bible

Já com o disco de estréia, Funeral [2004], o Arcade Fire se destacava e garantia como uma das grandes revelações do moderno revival pós-punk. Neon Bible é o desenvolvimento natural da banda, ainda baseando-se em temas bíblicos e elementos pouco usuais para caracterizar-se. “Black Mirror” tem melodias inesquecíveis e é um clássico instantâneo e “Intervention” é outra canção que chama atenção.


Bjork – Volta

Nem tanto pelo disco, mas especialmente pela performance dele no TIM Festival. Não dá pra comparar Volta com Post [1995] ou Vespertine [2001], em minha opinião seus ápices dançante e triste respectivamente, mas o último disco da musa islandesa é uma volta aos ritmos mais marcados e até dançantes, sem abandonar os experimentos que vem empreendendo a cada novo lançamento. Faixas como “Earth Intruders” [uma inusitada parceria com Timbaland], “Wanderlust” e “Declare Independence” [um encerramento caótico pra um show belíssimo] entram certamente nas coletâneas futuras e ficam pro setlist das próximas turnês.




Interpol – Our Love to Admire

Herdeiro direto do Joy Division, o Interpol é a banda mais legal da turma do baixo marcado e do clima dark. Com seu terceiro disco, Our Love to Admire, a banda evolui mais um passo [embora sem conseguir desvicilhar-se da referência britânica] em busca da identidade própria, mas ainda prefiro o disco de estréia, Turn On the Bright Lights [2002], que tinha canções mais fortes. Não que as canções de Our Love to Admire sejam fracas [longe disso, e “Pioneer to the Falls” e “Heinrich Maneuver” estão aí pra provar], mas, apesar de a banda ser muito boa, ainda falta “alguma coisa”.



Kings of Leon – Because of the Times

Mais maduros, os Followill evoluíram de seu rock rural pra uma música urbana e até universalista em Because of the Times. Tudo nele soa mais sólido e coeso, dos riffs e solos às linhas de baixo [que têm grande destaque, mesmo quando são simples] e bateria. É a modernidade chegando ao campo. Pro bem, eu diria. “My Party” é uma das melhores músicas do ano [e é totalmente inusitada diante da “obra” da banda]. Todas as faixas têm algum diferencial e é difícil apontar destaques, mas cito “On Call” e “McFearless” por distanciarem-se também do passado da banda.


Paul McCartney – Memory Almost Full

Só de ter McCartney cantando não tem como um disco ser ruim. Especialmente quando ele sai de um experimento sensacional [o anterior Chaos and Creation in the Backyard, de 2005] e resolve revisitar a carreira toda, do auge nos Beatles ao mais recente trabalho. Por conta disso, Memory Almost Full é um disco muito variado, passando por momentos tristes [“You Tell Me”], barulhentos [“Only Mama Knows”] e moderninhos [“Ever Present Past”]. Outro disco muito bom de um gênio.


PJ Harvey – White Chalk

Uma coisa difícil de se esperar é que PJ Harvey se repita em algum momento. A cantora é das mais criativas e versáteis do rock atual e se reinventa a cada novo álbum e turnê. Mas em White Chalk PJ fez o inesperado: trocou as guitarras pelo piano. O resultado pode ter sido um pouco assustador para os fãs, mas é um dos discos mais interessantes de 2007.




Radiohead – In Rainbows

E eis que uma das maiores bandas do mundo resolve lançar seu novo álbum apenas para download com o preço a ser escolhido por quem baixa. A proposta revolucionária foi pouco diante da grandeza do disco, In Rainbows. Unindo os elementos que fizeram de OK Computer [1997] e Kid A [2000] seus discos mais interessantes e revolucionários e mesclando influências jazzísticas e pitadas de modernidade, o quinteto de Oxford se superou mais uma vez e lançou outro disco pra figurar entre os grandes de sua já gloriosa carreira. Prometo pra logo uma crítica do álbum.


Stooges – The Weirdness

Uma banda que se separou por conta do uso exagerado de drogas resolve se reunir mais de trinta anos depois. Uma história que prometia não dar em nada acabou rendendo um álbum ótimo! Os Stooges voltaram e fizeram um disco deve muito pouco aos grandes clássicos do passado. Iggy ainda quer ser amigo da escória [“You Can’t Have Friends”] pois continua perdendo os seus por conta da idéia de diversão [“My Idea of Fun”], que todos conhecemos muito bem. The Weirdness é rock sujo, barulhento, cru e dos bons.


White Stripes – Icky Thump

Considerado um dos pais da geração indie [ao lado de Strokes e Libertines], o White Stripes parece incapaz de fazer um disco ruim. Apesar de ser um recorde de produção [três semanas em estúdio], o sexto álbum de Jack e Meg White ainda aposta na crueza e no flerte entre rock e blues. O cover da vez é de “Conquest”, que ficou conhecida com Patti Page nos anos 50, e o hit é deveras polêmico: “Icky Thump” mete o dedo na ferida da imigração. Meus destaques ficam com a pesada “Little Cream Soda” e a doidona “Rag and Bone”.


Wilco – Sky Blue Sky

O sexto álbum do folk Wilco foi a estréia do guitar-hero Nels Cline. Com sua entrada, o som da banda avançou para uma espécie de “vamos tocar muita guitarra e nos divertir a valer”. Sky Blue Sky é permeado de muitos solos de guitarra, tudo de muito bom gosto. Não é a incessante busca do record mundial de notas por segundo, mas seqüências de feeling e técnica impressionantes, que agradam principalmente aos não-instrumentistas. “Impossible Germany” é seu ápice, cujos infinitos solos ficam na memória insistentemente.


.:cesare fez a corrida:.

Quando o taxímetro marcava 11:41 PM



My Blueberry Nights, uma história de amor americana contada por um chinês

O primeiro filme ocidental do aclamado Wong Kar-wai se passa entre uma cafeteria em Nova York e um bar-cassino em Nevada. Longe de sua China natal e do estranhamento que sua cultura causa ao espectador ocidental, o brilhante diretor soa menos surpreendente.
Como de costume na cinematografia do diretor, My Blueberry Nights [2007] trata-se de uma história de amor. Obviamente, para que a narrativa tenha sua razão de existir, a busca do amor pela protagonista Liz [Norah Jones, em sua primeira atuação cinematográfica] é feita “pelo caminho mais longo”, como definiu o próprio Wong. Seu amor, Jeremy [Jude Law], está próximo. Compartilham uma amizade logo no início do filme, quando ela deixa uma chave na cafeteria onde ele trabalha. Desta relação, há uma cena interessantíssima, com ambos cuidando dos narizes machucados por motivos diferentes. Têm uma amizade simples e feliz, rompida pela viagem dela em direção ao Oeste, onde trabalharia como garçonete.
É de trás do balcão que Liz vê a relação de Arnie [David Strathairn] e Sue Lynne [Rachel Weisz, tão bonita que faz compreensível a reação do noivo abandonado] esfarelar-se levando ambos à bebida. É servindo a uma mesa de pôquer que se aproxima da jogadora inveterada Leslie [Natalie Portman]. Três personagens problemáticos que a fazem ter certeza de que seu lugar é NY.
Jeremy, encantado, sente a falta de Liz e a procura por telefone [ele parece receber cartões dela], mas sem sucesso. Numa noite, tem a sorte de conhecer uma personagem interpretada por nossa musa Cat Power [que tem ainda a canção “The Greatest”, faixa título de seu álbum mais recente, executada na trilha], num momento tão feliz quanto efêmero.
Quando vê Liz entrar novamente na cafeteria [quase um ano depois] vê que o amor voltou até ele. Depois de vê-la adormecer sobre o prato, beija-lhe os lábios lambuzados, cada um com a cabeça em uma direção [foto do pôster], terminando o filme com sua cena mais bonita.
Peço perdão por estragar a surpresa do final, mas desde o início fica claro que Wong não teria coragem de não dar um final feliz à história de amor. Seria um desrespeito muito grande em sua estréia norte-americana, especialmente contando com tantas jovens estrelas no elenco. Era sua obrigação mínima.
Deixo claro que My Blueberry Nights não é tão belo quanto Amor à Flor da Pele [2000], inteligente quanto 2046 [2004] ou sequer trabalha a dependência causada pelo amor tão bem quanto Days of Being Wild [1991] – pra fazer uma comparação com a famosa trilogia de Wong –, mas é uma bela estréia ocidental, a despeito das críticas que o filme tem recebido. Não é um grande filme diante da obra do diretor, mas é um excelente filme-pop. Bom, mas muito mais fraco que o primeiro ocidental do compatriota Hou Hsiao-hsien [Le Voyage du Ballon Rouge, de 2006], mais dotado de poesia e apelando para o olhar chinês sobre a França, diferente de My Blueberry Nights, que é realmente uma história de amor americana contada por um chinês.

.:cesare fez a corrida:.